08/05/2009 - 18:32h Reforma política virou palavrão

Pensata

Kennedy Alencar – Folha Online

kennedy_alencar50x50.jpgÉ saudável uma dose de ceticismo em relação ao mais recente desejo do Congresso de retomar o tema da reforma política. Afinal, em outros momentos difíceis para os políticos, essa surrada bandeira foi levantada como forma de tentar mudar de assunto e tirar o foco de escândalos.

Ora, não é ilegítimo quem está com a barra suja tentar limpá-la. Ainda que seja uma reação, uma tentativa de instituir uma “agenda positiva”, não há mal nisso. Basta não tratar o assunto com ingenuidade. Tampouco com desprezo. Parece que reforma política virou palavrão. É um erro subestimar a sua importância e a chance de votar ainda neste ano alguns pedaços dessa reforma. Há três pontos principais na crista da onda: financiamento das campanhas, lista fechada de candidatos elaborada pelos partidos e uma janela um ano ou seis meses antes das eleições para permitir troca de partido.

Certa demofobia atribui ao grosso do eleitorado uma recusa de antemão a esses pontos, como se fossem absurdos. São polêmicos, mas nada absurdos.

Dizer que motorista de táxi acha que financiamento público significa dar dinheiro para políticos ladrões é um argumento primário para dinamitar a discussão. É tratar o povo como estúpido. Muita gente no debate público brasileiro acha mesmo o povo idiota. Há aqueles que se surpreendem com a ousadia de a maioria da população achar que Lula faz um bom governo porque, vejam só!, Lula faz um bom governo. Para esse pessoal, o povo é idiota ao conferir ao presidente da República a popularidade que tem. Deve ser algum vodu lulista e não a percepção de melhoria de vida.

Carimbar a possibilidade de voto em lista como ditadura partidária parece o velho jogo de desqualificar a discussão para evitar descer aos detalhes. Dizer que os políticos querem uma janela de infidelidade porque são vagabundos que adoram trocar de partido por interesses escusos também é uma maneira de desqualificar o debate.

Vamos aos pontos:

Dinheiro de campanha

O atual financiamento de campanha conta com dinheiro público. Já temos um sistema misto. O fundo partidário e o horário eleitoral gratuito em rádio e TV custam dinheiro aos cofres públicos. Há uma proposta para acabar totalmente com o financiamento privado.

Cerca de R$ 1 bilhão para o primeiro turno das eleições de 2010 seria o valor para bancá-lo. Ora, não é uma quantia exorbitante para um país da importância do Brasil. Com o financiamento público total, deveria ser votada uma lei para cassar o mandato de quem for pego fazendo caixa 2.

Explicar à opinião pública que esse tipo de financiamento reduziria a influência do poder econômico sobre os políticos é um argumento convincente. Só muita demofobia para achar que o povo não o entenderia.

Este jornalista não tem uma posição fechada sobre o financiamento público puro. Mas é simpático à proposta e acha fundamental debatê-la. Talvez fosse possível permitir contribuições privadas de pessoas físicas e jurídicas até um determinado valor –algo bem baixo. Mil reais por CPF e R$ 10 mil por CNPJ poderiam conviver com o financiamento público.

As grandes empresas, se desejam mesmo contribuir para a democracia, poderiam fazer aportes no fundo público, como sugeriu o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB). Não dirigiriam a verba para o partido tal ou candidato tal, mas fariam doações para que o Tesouro tivesse de entrar com todos os recursos.

O que está claro é que o atual sistema de financiamento não está dando resultado. Mudá-lo pode ser uma boa ideia. As próprias empresas já estão ressabiadas. As contribuições para os partidos são uma forma de evitar doações para os candidatos individuais. O atual sistema de financiamento está doente.

Voto em lista

Em sua coluna na versão impressa da Folha, o craque Clóvis Rossi mostrou que o voto em lista não é nenhum bicho papão. “São pobres e completamente divorciados dos fatos os argumentos até aqui usados para vetar o voto em lista”, escreveu Rossi. E ele está certo.

Ora, há mesmo risco de uma ditadura partidária. Sobretudo na primeira eleição sob o novo sistema. Mas será que a sociedade aceitaria passivamente essa ditadura? Os diversos grupos de interesse não iriam brigar nos partidos para colocar seus representantes na lista?

O voto hoje é nominal. E temos isso aí na política.

Parece bastante simpática a possibilidade de um sistema misto, com metade dos candidatos eleitos nominalmente e a outra metade pela lista. Como é na Alemanha, lembrou Rossi.

Enfim, mesmo que não seja uma panaceia, o voto em lista não é golpe contra o eleitor. Esse argumento é torcida.

Mudança de partido

O STF (Supremo Tribunal Federal) confirmou o entendimento do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que praticamente acaba com o troca-troca partidário. Se o deputado muda de partido no meio do mandato, pode perdê-lo para a sigla. Antes da restrição, valia tudo e era péssimo. Agora, há argumentos honestos que dizem que se mudou da água para o vinho.

Permitir a um político que migre de partido uma vez a cada quatro anos, pouco antes de se apresentar para a próxima eleição, não é absurdo.

2010 e 2014

Também não é absurda a possibilidade de que eventuais novas regras eleitorais valham para as eleições de 2014. Facilitaria a aprovação agora e daria tempo para um período de transição.

Cotação

Hoje, o ministro José Múcio (Relações Institucionais) está mais perto de ser indicado para uma vaga ao TCU (Tribunal de Contas da União) do que a secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra. A vaga será aberta no mês que vem.

E-mail: kennedy.alencar@grupofolha.com.br

20/03/2009 - 09:43h Datafolha: uma marolinha na abrumadora aprovação ao governo Lula

A Folha publica hoje uma nova pesquisa Datafolha de avaliação do governo Lula e de intenção de votos para 2010.

Em relação a este último ponto, intenção de voto, fico com a opinião do Diretor do Datafolha: “Dilma é a única que sobe. O crescimento dela é contínuo desde março de 2008. A medida que vai se tornando mais conhecida e associada como candidata do presidente a tendência é que cresça.” (citado pela Folha, pag. A7).

A pesquisa mostra que Lula é aprovado pela maioria absoluta da população em todos os segmentos. Permanece inalterado o percentual dos que consideram seu governo ruim ou pessimo (são 8%). Já os que consideram o governo Lula ótimo e bom são 65%, tendo diminuído em relação a pesquisa anterior em 5 pontos, os quais aumentaram a faixa dos que avaliam o governo como regular (a margem de erro da pesquisa é de 2 pontos para + ou -).

Normal que isto aconteça em momentos em que o Brasil passa por um aperto gerado pela crise internacional, com impacto no emprego e na situação da indústria, particularmente o setor exportador.

Como curiosidade da pesquisa, a concordança da metade dos brasileiros (quase a mesma taxa que na pesquisa anterior) com a frase do presidente Lula “o Brasil, se tiver que passar por um aperto, será muito pequeno”. Ou seja continua a percepção que a crise econômica mundial, que tal um tsunami arrasou com as principais economias do mundo, no Brasil comparativamente sera uma marolinha, exigindo talvez um aperto “muito pequeno” (entende-se comparativamente).

A curiosidade é que a força da propaganda contra outra frase de Lula -a da marolhinha- e que substancialmente disse o mesmo que a anterior, viu despencar a porcentagem dos que com ela concordam e aumentar de 11 pontos os que dela discordam. Curioso mas não surpreendente, pois a frase sobre a marolinha pronunciada quando a crise estava ainda cincunscrita aos países ricos, foi objeto de críticas, sarcasmo e campanhas televisivas negativas, já a outra frase não.

A verdadeira questão, em relação as eleições de 2010, não é se a crise acabará provocando um “aperto pequeno ou grande”. A questão é qual será a percepção da população sobre a ação do governo para enfrentar as consequências da crise. Evidentemente qualquer “aperto”, com impacto no emprego e renda, desgasta o governante. Isto é válido para Lula, mas também para José Serra ou Kassab. O que a população julgará, pois ela sabe que a crise não é resultado da situação da economia brasileira como era na época de FHC; é como e em defesa de quais interesses os governantes procederão ao “aperto”.

Neste quesito, por enquanto, o governo Lula tem mostrado que age com acerto para preservar os interesses da nação como um todo, incluindo empresários e trabalhadores, na procura de limitar o impacto da crise. Mesmo assim, tem diminuído à aprovação a atuação do governo no combate aos efeitos da crise (passou de 49% a 43%).

Por parte da oposição, mesmo com a benevolência de grande parte da mídia, não se percebe nenhuma ideia (nem para enfrentar tsunami ou marolinha). O encefalograma dos demo-tucanos não registra qualquer sinal vital, e suas principais vitrines -o Estado de São Paulo e sua capital- não parecem exemplos à favorecer seus titulares, Serra e Kassab. Seguramente o Datafolha avaliará proximamente a situação destas vitrines.

Não deixa de ser um extraordinário reconhecimento para o presidente Lula o infográfico da Folha comparando seus resultados na pesquisa, após 7 anos de governo, com os do Barack Obama, recem eleito: o mesmo percentual de ótimo e bom para ambos.

Luis Favre

03/03/2009 - 14:21h A nova direita

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MARCOS NOBRE – FOLHA SP

NÃO FAZ MUITO tempo, a esquerda tinha conseguido estabelecer alguns sólidos pontos de partida do debate político. Aplicar pena de prisão não diminui a criminalidade, porque o crime não é apenas ação de um indivíduo, mas falha de toda uma sociedade. O desemprego não é culpa do desempregado, mas de um sistema econômico que produz injustiça. O progresso material só significa progresso social e político se houver uma justa e solidária distribuição da riqueza. E por aí vai.
Essas posições foram desafiadas e derrotadas. Nos últimos 30 anos, enquanto movimentos e grupos sociais reivindicavam mais liberdade, uma esquerda tradicional respondeu de maneira tradicional: liberdade só com igualdade primeiro. Recusou-se a ver que havia ali um problema real, que a promoção da igualdade não produz automaticamente pessoas autônomas. Ao invés de aceitar o desafio de pensar uma nova relação entre liberdade e igualdade, boa parte da esquerda perdeu-se em discussões bizantinas como a das causas da queda do decrépito bloco soviético.
Enquanto isso, a direita se apresentou em nova roupagem, como paladino da liberdade e mãe da democracia -quando se sabe que a democracia de massas foi em larga medida uma conquista do movimento operário contra a direita, que entrava em pânico só de pensar no voto universal secreto. A nova direita ocupou um a um os espaços disponíveis nos meios de comunicação de massa e na esfera pública, em um combate cotidiano contra as teses de esquerda então dominantes. Venceu e transformou a sua vitória em poder institucional.
O resultado foi uma guinada nos pontos de partida do debate político. O que se pede hoje de todos os lados é mais prisão, mais responsabilização dos indivíduos, mais progresso material puro e simples. E por aí vai. É nisso que consiste a atual hegemonia da direita.
A nova direita vê a forma atual da democracia como imutável, como o “fim da história”. Avalia toda tentativa da esquerda de transformar a democracia como um ataque à liberdade. Mas, ao mesmo tempo, não vê problema em aceitar -como fez a Folha a propósito da ditadura militar brasileira- o revisionismo histórico e gradações no autoritarismo.
A atual crise econômica pode alterar esse quadro. Esse é o maior temor da nova direita hegemônica. Mas isso só tem chance de acontecer se a esquerda for capaz de fazer o combate de ideias no espaço público sem continuar a pressupor que seus pontos de partida seguem inquestionáveis. Convencer pessoas que já estão convencidas é puro conformismo.

nobre.a2 uol.com.br
MARCOS NOBRE escreve às terças-feiras nesta coluna.

14/12/2008 - 17:19h A nova onda feminista

Ele já foi chamado de movimento das “mal-amadas” e associado a mulheres homossexuais. Recebeu mais ataques do que elogios, mas foi o motor de conquistas inegáveis para as mulheres. Gostem ou não, o feminismo, termo usado pela primeira vez nos anos 30 do século 19, continua a todo vapor

Edma Cristina de Góis Revista do Correio Braziliense

Monique Renne/CB/D.A Press

Mãe solteira e independente, Eliane acredita que sua maior conquista foi a autonomia

Eliane Maria de Carvalho, 38 anos, é solteira, tem um filho de 12 anos, trabalha dois expedientes e faz faculdade de administração à noite. Diariamente, caminha três quadras até sua casa para almoçar com o filho Leonardo. Ele já não precisa da mãe para ir à escola e desde os 8 anos fica sozinho em casa quando ela sai para trabalhar. Mesmo sem se declarar feminista, Eliane acumula em sua trajetória conquistas e desafios desse movimento: o direito à educação, a inserção no mercado de trabalho, a opção pela maternidade solteira e a autonomia, uma vez que é a chefe de um lar. “Eu fugi da linhagem da minha família, na qual as mulheres ficavam casadas ou, quando separadas, voltavam para a casa dos pais. Sou feliz porque sou dona da minha vida e tomo minhas próprias decisões”, explica.

Como Eliane, a maioria das mulheres, pelo menos as ocidentais, vive uma realidade que hoje só é possível graças a feministas que, na contramão do preconceito de suas épocas, arregaçaram as mangas por um ideal coletivo. Estigmatizado e, na maior parte das vezes, mal interpretado, o movimento se reconfigurou mais uma vez na primeira década do século 21. Hoje, ele é marcado como um movimento mais plural, bem diferente daquele da época em que Betty Friedan lançou A mística feminina (1963), que retratou a realidade das mulheres americanas, brancas e de classe média — período conhecido como a segunda onda do feminismo e que permaneceu no imaginário mundial graças ao ato em praça pública da queima de sutiãs.

A complexidade do feminismo hoje deve-se à conciliação de bandeiras de lutas de muitas mulheres: brancas, negras, de classe média e baixa, indígenas, homossexuais, heterossexuais etc. Nesse contexto, estão temas como o direito à educação de qualidade, ainda um entrave sobretudo para as mulheres negras, e a violência doméstica. Além disso, é preciso levar as conquistas adquiridas no mercado de trabalho para dentro de casa. Nesse ponto, houve pouco avanço e algumas correntes acusam o próprio movimento de sobrecarregar as mulheres e de ser preconceituoso com aquelas que optam por serem donas-de-casa ou priorizam a maternidade.

Feministas e pesquisadoras de gênero de diversas áreas — história, sociologia e literatura — afirmam que nunca houve nem há um movimento feminista homogêneo. O movimento de mulheres, no Brasil e no mundo, é marcado pelas diferentes vozes. Na prática, elas desejam transformar a realidade do espaço público e privado marcado por um modelo sexista. “Toda mulher é um pouco feminista, mesmo quem não assume”, afirma a pedagoga Marta de Paula, 48, uma das nove mulheres com quem a Revista do Correio conversou sobre o assunto.

Por que se luta hoje

*Pelo combate a todas as formas de discriminação no mercado de trabalho, no sistema educacional, na saúde, na representação política etc.)
*Pela aceitação da pluralidade de mulheres (negras, indígenas, jovens, idosas, lésbicas, mulheres do campo, da floresta etc.)
*Pela discussão sobre os direitos sexuais e reprodutivos, incluindo a descriminalização do aborto, a ética nas pesquisas científicas e o acesso ao atendimento para garantir a saúde da mulher.
*Pelo combate à violência contra as mulheres.
*Pela reorganização dos papéis dentro de casa, de modo a evitar a sobrecarga de trabalho.
*Para que a mídia não reproduza padrões sexistas, como a exploração do corpo feminino.

O que já foi conquistado

Voto
Em 1932, as mulheres passam a ter direito ao voto no Brasil.Trabalho fora de casa
Nos anos 1950, as mulheres vivem a dicotomia do trabalho em casa e fora. Ainda assim são poucas as que conseguem se lançar no mercado de trabalho e conciliar as duas jornadas. A partir dos anos 1970, percebe-se maior participação delas no mercado de trabalho.
As diferenças salariais, no entanto, perduram até hoje.

Representação política
30% das candidaturas a cargos eletivos devem ser de mulheres desde 1990.

Costumes e sexualidade
O Brasil também participou da revolução sexual e de comportamento dos anos 1960. Um dos símbolos nacionais dessa fase foi a atriz Leila Diniz, cuja imagem dela, grávida na praia, marcou época.

Serviços de saúde
No Brasil, os primeiros programas de atendimento à saúde da mulher são dos anos 1980.

Combate à violência
As primeiras manifestações são dos anos 1970. Na década seguinte são criados serviços de atendimento à mulher vítima de violência. Também é fundada a primeira delegacia da mulher. No primeiro governo Lula, é criada uma secretaria especial para as mulheres e, em 2006, é promulgada a Lei Maria da Penha.

Sem conceitos

O movimento feminista é dividido por etapas de acordo com a inclusão de novas bandeiras ou pelo reforço de alguns desafios. Sobre esse assunto, não há consenso entre especialistas. Alguns acreditam que haja apenas duas fases: a primeira onda, no início do século passado, com a luta pelo acesso à educação como principal slogan, e a segunda onda, marcada pelo lançamento da obra A mística feminina, da norte-americana Betty Friedan, uma das mais importantes feministas do século 20.
No entanto, há quem defina a terceira onda feminista no Brasil como sendo a fase de luta das mulheres contra a ditadura e pela redemocratização. A quarta seria a fase atual, em que se discutem temas como violência contra a mulher, democratização da vivência da sexualidade, a laicidade do Estado e a igualdade racial.

War Production/Reprodução
 

 

NA GUERRA

O cartaz Rose the Riveter acima, com a inscrição “We can do it”, virou um dos símbolos do movimento feminista nos Estados Unidos. Durante a 2ª Guerra Mundial, a publicidade foi usada para convocar as mulheres a trabalharem em fábricas, porque muitos homens estavam no front de combate. Elas acataram o pedido e muitas foram trabalhar nas fábricas dos aviões B-29. Foram esses aviões que soltaram as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. É por essa razão que parte do movimento feminista vê o cartaz de modo negativo e não o reconhece como referência à luta das mulheres.

AUTONOMIA, A GRANDE CONQUISTA

Quando a assessora administrativa Eliane Maria de Carvalho, 38 anos, terminou o segundo grau, começou logo a trabalhar. Tentou vestibular na época, mas como não foi aprovada acabou adiando o sonho de se formar. Depois veio a gravidez inesperada e a mudança radical da vida. A família não recebeu bem a notícia, mas apoiou a decisão de Eliane de ter o filho mesmo sem o apoio do pai. Leonardo nasceu quando ela tinha 26 anos. Há cinco anos em Brasília e há dois estudando administração, Eliane faz um balanço positivo de suas conquistas. A maior delas, sua autonomia.

A independência de Eliane tornou-se real graças à soma de educação e trabalho. As primeiras defensoras dos direitos da mulher no Brasil apostavam na educação como corredor de acesso para a emancipação feminina e a melhoria de status. A justificativa era óbvia: com formação superior, as mulheres poderiam ter uma profissão e conquistar sua independência. A educação superior virou realidade para as mulheres brasileiras com a lei da reforma educacional de 1879, embora a primeira legislação em relação à educação feminina date de 1827. Com isso, elas reivindicavam o direito ao voto, o que foi debatido e negado pelo Congresso Constituinte de 1891.

Mais de um século depois, a presença das mulheres no mercado de trabalho, nos mais diversos cargos, nas universidades e nas esferas de poderes, dão a impressão de que tudo foi ganho, logo o feminismo perderia sua razão de existir. A historiadora Céli Pinto, autora de Uma história do feminismo no Brasil, rebate essa tese. “O movimento mudou com o tempo. No Brasil, a onda do feminismo dos anos 1960 chega com atraso devido à ditadura militar, no entanto as lutas feministas florescem junto com a campanha pela redemocratização”, explica. Por essa razão, os movimentos de mulheres brasileiras surgem próximos às Comunidades Eclesiais de Base (CEB) e aos movimentos populares.

O feminismo no Brasil e no mundo

1832
Nísia Floresta publica Direitos das mulheres e Injustiça dos homens

1873
O jornal O sexo feminino é lançado. No mesmo ano, surge o Jornal das Senhoras, primeira publicação editada exclusivamente por mulheres no Brasil, por Joana Paula M. Noronha

1915 a 1932
A luta pelo sufrágio universal mobiliza as mulheres no país e no mundo

1921
É fundada a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino

1929
Criada a Aliança Nacional de Mulheres

1948
Surge a Federação de Mulheres do Brasil

1949
Simone de Beauvoir publica O Segundo Sexo, influência para gerações de feministas.

1963
Betty Friedan publica
A mística feminina, marco do feminismo de segunda onda

1969
Helieth Saffioti publica
A mulher na sociedade de classes

1972
Aparecem no Brasil os primeiros grupos da segunda onda feminista

1975
É declarado pela ONU o Ano Internacional da Mulher e a Década da Mulher. É realizada a I Conferência Mundial sobre a Mulher (México)

1975
Terezinha Zerbini cria o Movimento Feminino pela Anistia

1976
O assassinato de Ângela Diniz por Doca Street coloca a questão da violência contra as mulheres na agenda política brasileira

1979
Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres

1980
Criação dos serviços de atendimento às mulheres vítimas de violência no Brasil

1983
Instituído o PAISM, Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher

1984
Criação do Conselho Nacional de Direitos da Mulher (CNDM)

1985
É realizada a III Conferência Mundial sobre a Mulher (Nairóbi)

1995
IV Conferência Mundial sobre a Mulher (Beijin)

1985
É fundada a I Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher (DEAM), em São Paulo

1990
É realizado o I Encontro Nacional de Mulheres Negras, no Rio de Janeiro

1994
Aprovada a primeira lei de cotas. Ela estabelece que 20% de candidaturas nas listas partidárias para as eleições de 1996 devem ser ocupadas por mulheres. Esse número é ampliado para 30%
em 1997

1994
É realizada em Belém a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. No mesmo ano, foi criado o movimento Ciranda da Articulação da Mulher Brasileira

2006
Criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, primeiro órgão institucional com a missão de articular políticas públicas para as mulheres, vinculada à Presidência da República. No mesmo ano, é promulgada a Lei Maria da Penha para coibir a violência doméstica contra as mulheres no país

Monique Renne/CB/D.A Press
Marcela Addario não largou o emprego, mas não quer cargos de chefia para se dedicar à maternidade: decisão difícil


TODA MULHER É MEIO FEMINISTA

A feminista Camile Paglia costuma causar polêmica e suscitar reações inflamadas quando sugere, como fez recentemente no Brasil, que o feminismo pode ter pavimentado o caminho que tornou o sexo feminino sujeito a um regime estressante de tripla jornada e negação da maternidade. Alguns a classificam como pós-feminista, outros como uma dissidente cujo pensamento pode comprometer a imagem de um movimento que trouxe conquistas importantes. “Não há equívoco no feminismo. A opção pela maternidade é que é uma novidade, porque ser mãe era função. Nesse momento, as mulheres optam por serem ou não mães, essa é a diferença”, esclarece a historiadora Céli Pinto, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A diferença, na prática, vai um pouco mais além. Mesmo longe dos movimentos organizados, algumas mulheres exercem um papel transgressor, embora não pareça. Tão naturalmente como Leila Diniz exibiu seu barrigão de grávida na praia em 1971, a economista Marcela Addario, 37 anos, contrariou sua vocação de executiva, abrindo mão de cargos de chefia no emprego para exercer a maternidade de forma mais plena — o que nos dias de hoje não deixa de ter um viés revolucionário, ainda que ele esteja circunscrito às quatro paredes de um lar.

Depois de morar quase uma década na Alemanha, ocupando cargos executivos na área financeira da empresa em que trabalhava, voltou ao Brasil, casou-se pela segunda vez e teve um filho, Matheus, hoje com 1 ano. Ela acredita que fez suas escolhas na hora certa, vivendo intensamente a profissão e agora priorizando a maternidade. “Fiz tudo o que quis na minha carreira e ainda desejo voltar a ter cargo de chefia, mas hoje o mais importante é meu papel de mãe. Foi uma decisão muito difícil e demorada”, afirma.

Embora consciente de suas escolhas, Marcela admite que, mesmo abrindo mão das responsabilidades de executiva, há uma sobrecarga ao se dividir entre o trabalho atual e as obrigações de casa. “A mulher só consegue conciliar o público e o privado se tiver uma estrutura de apoio, porque em casa continua tudo igual, por mais que os maridos de hoje ajudem mais do que os de antigamente.”

É exatamente por isso que as feministas recusam-se a aceitar a idéia de um novo feminismo, pois acreditam que o acúmulo de funções das mulheres que decidem ser mães e continuam trabalhando é uma bandeira renovada quando se trata de inserção no mercado de trabalho e das idéias de igualdade. “O termo pós-feminismo é um equívoco porque muitos temas não foram superados no Brasil. Além disso, não há igualdade de posições”, comenta a socióloga Fernanda Bittencourt, da Secretaria Especial das Mulheres.

Monique Renne/CB/D.A Press
Marta fez curso superior e pós-graduação, realidade distante para negras, mas ainda luta contra o racismo e a tripla jornada


A COR DO PLURALISMO

Marta de Paula, 48 anos, acorda às 6h, passa o dia inteiro no trabalho e, à noite, cuida da casa, faz o almoço do dia seguinte e ainda dá atenção às filhas e ao marido. A rotina de dedicação ao lar de certa forma a aproxima das donas-de-casa retratadas no livro A mística feminina, escrito por Betty Friedan há 45 anos e que se tornou uma espécie de bíblia do movimento feminista. Naquela época, a publicação causou comoção, pois refletiu as insatisfações das mulheres com aquela vidinha aparentemente feliz. Mas a semelhança de Marta e de outras mulheres desse tempo com as do livro pára por aí. “Era um problema no singular, da mulher branca e de classe média. Nesses mais de 40 anos, o feminismo vê o plural”, define a socióloga Fernanda Bittencourt, da Secretaria Especial das Mulheres.

Nesse sentido, Marta encarna os novos rumos do movimento, que procura incluir os diferentes tipos de mulheres e suas reivindicações. O combate ao racismo é um exemplo. Desde os anos 1980, as negras se associaram para reivindicar suas lutas, pois não se sentiam representadas nem no movimento feminista nem no movimento negro. Hoje, elas combatem a violência doméstica e batalham pelo acesso ao serviço de saúde, uma vez que há doenças específicas dos negros que precisam ser tratadas com garantias do Estado. Apesar de haver um programa nacional para atender a população negra, muitos gestores de municípios e cidades não o incorporaram. “Há um racismo institucional, por isso em muitas cidades o programa só existe no papel”, alerta Eliana Maria Custódio, coordenadora-executiva do Geledés — Instituto da Mulher Negra, criado há 20 anos no Brasil.

Marta de Paula lembra: “Já fui discriminada na faculdade por conta da minha cor”. Da família de seis irmãos, apenas Marta e uma irmã conseguiram entrar na universidade. Ela se formou pedagoga e cursou pós-graduação em secretariado executivo. Mas ainda é exceção. Por isso, a educação permanece como um dos principais temas para os movimentos de mulheres negras no país.

De acordo com Eliana Custódio, a educação é um fator fundamental para a mobilidade social e a inserção no mercado de trabalho. “A maior parte dos alunos do ensino médio e fundamental públicos é de negros e sabemos sobre a qualidade desse ensino”, diz. A feminista acrescenta que, mesmo com acesso à educação, a mulher negra sofre preconceito de raça no mercado de trabalho, o que faz com que as demandas dessas mulheres sejam um pouco diferentes das mulheres brancas.

 
Maura descende de uma linhagem de mulheres autônomas e conseguiu conciliar emprego e maternidade

 

NOVAS MULHERES, NOVOS TEMAS

A avó, viúva aos 21 anos, foi tentar a vida no Rio de Janeiro com os dois filhos a tiracolo. Casou-se de novo quando e com quem quis. A mãe entrou na faculdade de direito depois dos 40 anos. A empresária Maura Alvim, 46, casou-se aos 22, foi mãe aos 24, hoje tem duas filhas, de 19 e 22, que moram em São Paulo. A relação aberta com as filhas é resultado das experiências das mulheres que a antecederam. “Me beneficiei porque minha mãe era antenada. Vim de uma família de mulheres especiais”, avalia.

A empresária conta que sempre trabalhou, mas optou por fazer intervalos para ser mãe. Na vida pública, ela acredita que a mulher ainda é colocada à prova. Para Maura, a violência contra a mulher é o tema mais importante dessa geração. “O homem jovem já percebeu os direitos das mulheres e quanto mais escolarizado, mais respeita a parceira”, compara.

“Ser alheio a essa discussão é dito como politicamente incorreto hoje”, afirma uma das coordenadoras do Católicas pelo Direito de Decidir, Regina Jurkewicz. Depois da promulgação da Lei Maria da Penha, ela acredita que o desafio das mulheres é pelo cumprimento da legislação. Além da questão da violência, Regina aponta outras bandeiras de luta, como a discussão em torno da laicidade do Estado, do avanço das tecnologias reprodutivas e da democracia na prática da sexualidade.

“O espartilho mental”
A socióloga Fernanda Bittencourt, da Secretaria Especial das Mulheres, aponta o racismo e a diversidade sexual como alguns dos temas mais debatidos. Mas, além deles, são importantes a violência contra a mulher, não só física, e os direitos reprodutivos. “Em outros países, a discussão sobre o aborto foi garantida. O Brasil não superou isso.”

A pesquisadora de gênero na literatura Lélia Almeida lembra que as reivindicações das mulheres são crescentes porque elas inserem novas bandeiras de luta com o passar dos anos. Enquanto a ética nas pesquisas científicas é um tema relativamente novo, a sexualidade é um assunto que não saiu do cardápio feminista. “Muito pouco mudou em relação aos direitos reprodutivos. Continuamos vivendo um ‘espartilho mental’, um manual de como ser legitimado pelos diversos saberes”, afirma.

Regina Jurkewicz acredita que houve avanços, inclusive a institucionalização das lutas feministas. Um exemplo disso é a criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, no primeiro governo Lula. “É um reconhecimento de que não se trata de questões sobre as mulheres, mas de políticas públicas para todo o país”, explica Regina. Outra vitória foi a Lei Maria da Penha (11.340/06), que alterou o Código Penal, coibindo a violência doméstica e familiar contra a mulher. Os agressores podem ser presos em flagrante ou ter a prisão preventiva decretada (detenção por três anos).

Apesar do reconhecimento unânime sobre a ação do governo na defesa de direitos das mulheres, Lélia Almeida, que coordena o projeto Mulheres da Paz, lançado semana passada pelo Ministério da Justiça, alerta que o movimento feminista pode perder com essa aproximação com o Estado caso deixe tudo por conta do governo. “Ganhou-se por um lado e se perdeu por outro. O movimento feminista sempre brigou por sua autonomia.”

Produção: Bianca Assunção \\ Cabelo e Maquiagem: Rose Paz, do Espaço Rose Paz, com produtos Mary Key

26/10/2008 - 11:23h Opostos no voto ou em dúvida, mas a mesma realidade

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26/10/2008 - 11:15h Opostos socialmente e politicamente

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VOTO MARTA

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VOTO KASSAB

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05/10/2008 - 14:09h Voto a voto

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Fotos Cesar Ogata

05/09/2008 - 10:41h O mapa das eleições municipais em São Paulo

Clique na imagem para ampliar e ler

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PSDB e PT brigam por 10% de indecisos

Paulo Totti – VALOR

Não é esta a primeira vez que Marta Suplicy (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB) são adversários na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Isso já aconteceu em 2000, quando Marta teve 34,4% dos votos e passou para o segundo turno. O desempenho de Alckmin foi tão discreto que nem seus próprios eleitores (17,26%) recordarão que o então vice-governador de Mário Covas chegou em terceiro. Quem logrou classificar-se para uma derrota no turno final foi outro reincidente na eleição de agora, Paulo Maluf (PP, ex-PPB), com 17,4% – 7,5 mil votos a mais que Alckmin.

Marta Teresa Suplicy – os sobrenomes Matarazzo e Smith Vasconcelos não constam do registro no TRE – teve sua maior votação no primeiro turno, 41,94%, na 375ª Zona Eleitoral – São Mateus, no extremo leste da cidade, região que o instituto de pesquisas Datafolha considera Leste 2. Marta foi a mais votada em 2000 também nos bairros de Sapopemba (41,21%) na Leste 1, Itaim Paulista (40,02%) Leste 2 e Grajaú (39,66%), Sul 2. Paulo Salim Maluf – herdeiro dos votos de Jânio Quadros e também de Adhemar de Barros, curiosa aliança da vassoura com a gazua ainda não explicada pela ciência política – conseguiu sua maior votação, 23,04%, na 260ª Zona Eleitoral – Ipiranga e Sacomã, Sul 1. Apesar de não ter sido o primeiro, Maluf foi igualmente bem votado na Vila Maria (20,47%, Norte 1) e Tatuapé (20,23%, Leste 1).

Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho, na mesma eleição, teve sua maior votação, 36,08% na 5ª Zona Eleitoral – Jardim Paulista, Cerqueira César, Vila Olímpia (Oeste). Outras boas votações de Alckmin: 33,32% em Pinheiros, Alto de Pinheiros, Jardim América, Vila Ida, Vila Madalena (Oeste); 27,37% em Perdizes (Oeste) e 27,15% na Vila Mariana (Sul 1).

Oito anos depois, pouco mudou. Marta e o PT continuam imbatíveis a Leste e ao Sul. Alckmin e o PSDB são os campeões de votos na região Oeste. Maluf perdeu poder, prestígio e votos. Seus eleitores migraram visivelmente para o PSDB e o PFL, hoje DEM, mas, nesta undécima participação sua em eleições diretas, ainda tem influência – não mais que 10% dos votos – numa faixa que corta verticalmente o centro do mapa de São Paulo, juntando bairros da região Norte, Vila Maria, Santana, Tucuruvi, com a do Sul próximo – Ipiranga – e da Leste 1 – Penha, Tatuapé -, região que, por ser um reduto de Jânio Quadros em suas disputas com o então MDB na década de 80, levou o politicólogo Antônio Flávio Pierucci a publicar respeitada análise do quadro eleitoral com o título “A direita mora do outro lado da cidade”.

O outro lado, obviamente, era o que ficava logo ali, depois da Sé, a caminho das zonas Norte e Leste. A esquerda era o MDB, de Orestes Quércia e ainda de Fernando Henrique Cardoso, e, na época, freqüentava um triângulo com vértices nas Universidades (USP, PUC, Mackenzie). O MDB, depois PMDB, ainda sustentou por anos a disputa pelo voto na periferia, mas, nessas regiões, perdeu algum terreno para o PSDB e maciçamente para o PT. Hoje, o PSDB consolidou o domínio em bairros como Pinheiros, Perdizes, Jardins. Não é que a direita se tenha mudado para este lado da cidade, dirão petistas que ainda se consideram esquerdistas. Este lado da cidade é que marchou, pelo menos, para a centro-direita. Dados oficiais mostram que José Serra, em 2004 para prefeito, alcançou nessa espécie de Vilaboim ampliada mais de 55% dos votos no primeiro turno. E se espalhou, com 45% a 55% dos votos, por Norte 1, Leste 1 e Sul 1. Números semelhantes, mesmo derrotado, o PT registrou em 2004 numa espessa franja de eleitores que ocupa toda região Sul 2, a densamente povoada região Leste 2 e a porção Perus/Anhanguera da região Norte 2 (em 1996, eleição de Celso Pitta, o PT salpicava de vermelho apenas dois subdistritos da Leste 2).

A disputa passou a ser, figurativamente, entre a Vilaboim e a Capela do Socorro. Vilaboim é a agradável pracinha de Higienópolis, em cuja vizinhança moram tucanos históricos como Fernando Henrique Cardoso e Paulo Renato Souza, ex-ministro da Educação e hoje deputado federal. O eleitor típico do PSDB mora numa “Vilaboim ampliada”, que pode ser Higienópolis e também Moema ou Alto Pinheiros. Ganha mais de 10 salários mínimos por mês e tem educação superior completa. Já o eleitor típico, que há três eleições vota no PT e parte agora para sua quarta manifestação de fidelidade, tem menos de seis anos de educação formal, ganha dois salários mínimos mensais e mora numa “Capela do Socorro ampliada”, que pode ser um conjunto habitacional da Cidade Dutra, ou uma casa-geminada-de-banheiro-único-e-laje-aguardando-ampliação-para-segundo-piso no Jardim Irene, região Sul 2. Aqui Fernando Henrique e Paulo Renato são pouco conhecidos e nada influentes. A Zona Sul se orgulha de Cafu, o lateral direito da seleção pentacampeã de futebol, nascido no Jardim Irene, mas a influência política é da família Tatto. A família, com experiência de atuação entre os sem-terra no interior do Rio Grande do Sul, instalou-se na região da Capela do Socorro e ligou-se à igreja e ao PT de São Paulo. Hoje nada acontece na política da Zona Sul ou na vida interna do PT da capital sem a concordância do deputado federal Jilmar Tatto, do deputado estadual Ênio Tatto e do vereador Arselino Tatto.

Nesta campanha, Marta Suplicy chegou à Cidade Dutra e à Vila São José, na 280ª Zona Eleitoral, para uma protocolar caminhada pelas ruas de comércio, abraços e apertos de mão de moradores que, somados os dois eventos, não durariam mais de 45 minutos. Os Tatto haviam mobilizado uma multidão para recebê-la, no meio da tarde de uma quarta-feira, dia de trabalho. Na Vila São José, Marta teve de transformar a visita em comício, subiu no carro de som e discursou ao lado dos Tatto e – cortesia da família – outros candidatos a vereador do PT e até do PCdoB e do PSB. Nas eleições municipais perdidas de 2004 e nas presidenciais vencidas de 2006 (Em São Paulo as presidencias não foram vencidas pelo PT – NDLF), o PT teve mais de 60% na Vila São José. “Vamos ter mais de 80 agora, e levar Marta à vitória já no primeiro turno”, conclamou do alto do carro de som – o seu carro de som -o vereador Tatto. Na pracinha triangular José Boerner Roschel da Vila São José, mais de mil pessoas aplaudiam. Duzentas delas traziam bandeiras com o nome e o 13.696 de Arselino Tatto, candidato à reeleição.

A campanha de Geraldo Alckmin tem algumas deficiências marcantes. A principal delas é a falta de doadores e, até agora, a ausência do governador Serra nos palanques e na TV – a primeira deficiência, comenta-se, seria uma provável conseqüência da segunda. Mas falta também uma família Tatto para arrebanhar “militantes” – pagos evidentemente, pois desde a eleição da prefeita Luiza Erundina, em 1988, mesmo no PT, não há mais quem tabalhe de graça em eleição -, embandeirar as esquinas e criar um clima de “já ganhou”, verdadeiro ou artificial.

De eleição em eleição, o PT cresce a partir da periferia. Em 1996, só tinha mais de 45% dos votos em São Mateus

Em Tremembé, esquina das avenidas Coronel Sezefredo Fagundes e Professora Maria Amália, numa tarde em que o bairro receberia a visita de Alckmin, apareceu um velho e grande ônibus com o letreiro “Família Cerciari” e faixas de “Paulo Cerciari, Vereador, 45.111″, estacionou perto do Sobradinho dos Drinks e ficou ali, parado, sem fazer qualquer barulho. A família Cerciari foi embora quando veio a notícia de que Alckmin desistira da visita porque adeptos de Maluf, com quatro kombis, uma bateria de oito (bons) ritmistas e dezenas de bandeiras “São Paulo tem pressa, Maluf, 11″ já ocupavam as calçadas na confluência das duas avenidas. Permaneceu no local, por mais alguns minutos a torcida organizada “Aníbal, 45.601″, do ex-subprefeito de Jaçanã, Aníbal de Freitas Filho. São as 60 moças de Aníbal com suas bandeiras amarelas, transportadas em seis camionetas, a presença mais constante nas aparições de Alckmin no Centro e na região Norte da cidade (no acompanhamento de Alckmin, mais fiéis e interessados que os tucanos parecem ser os candidatos a vereador do PTB, como Robson Tuma, “homem de respeito, 14.040″, com suas nove reluzentes kombis). As moças de Aníbal recebem ajuda de custo para alimentação, transporte e um salário mínimo para acompanhar a agenda do candidato a vereador o mês inteiro (esta é a remuneração padrão da mão-de-obra menos qualificada da campanha de rua). Como Alckmin não apareceu para os ambicionados eleitores – apenas passou de carro pela esquina – as garotas do Aníbal também foram embora, rebolando na cadência do samba da bandinha que esperava a chegada de Maluf. Uma das coordenadoras de Aníbal se aproximou de outro coordenador e gritou-lhe no ouvido: “Ânimo, ânimo”. E ria. Dava a impressão de que o fazia literalmente entre aspas, repetindo recomendação de algum coordenador de coordenadores.

Dois dias depois, Alckmin acordou cedo e às 6h30 já estava na esquina da rua Monsenhor Andrade e Henrique Dias, no bairro do Brás, à entrada do maior camelódromo do Brasil, o Shopping Popular da Madrugada. É um terreno da antiga Rede Ferroviária Federal alugada a uma empresa, a GSA, que administra o funcionamento entre duas da manhã e seis da tarde de um aglomerado de 4,7 mil bancas dedicadas à venda de produtos populares – praticamente tudo, à exceção visível de bebidas alcoólicas e eletroeletrônicos. Cada banca mede dois metros por um e é atendida, no mínimo, por duas pessoas: 9,4 mil eleitores diretos, fora as famílias. Atrás do shopping há um estacionamento que recebe em média 300 ônibus por noite – 400 na época de Natal. Existem até alojamentos no shopping para hospedar os motoristas de ônibus que antes iam para o Paraguai, mas desde 2005 preferem viajar até São Paulo transportando milhares de sacoleiros de todo o país.

Alckmin chegou sem paletó, protegido do frio da madrugada por uma camiseta por baixo da camisa social, e foi colhendo informações dos administradores do shopping. Seus acompanhantes eram poucos e também poucos os candidatos a vereador e cabos eleitorais. Somados, chegavam a 12. No labirinto de bancas, uma colada a outra, com um corredor exíguo, mais estreito que os caminhos do Mercado Modelo de Salvador, luzes todas acesas pois não se vê o sol nascer sobre o teto de plástico das tendas, Alckmin vai cumprimentando vendedores e fregueses – estes, em sua quase totalidade eleitores de outras cidades e Estados – e fazendo perguntas. Com seu característico apertar do lábio inferior com a arcada dentária superior, o candidato quer saber tudo, o valor do aluguel (R$ 220 o metro quadrado), o horário de funcionamento, onde moram. E despede-se: “Parabéns, você é uma guerreira”. “Até mais, bons negócios”. Mas o clima não é exatamente o de campanha eleitoral, está tudo muito certinho, comportado, até que um dos acompanhantes de Alckmin, de óculos, bigodes grisalhos, paletó sem gravata, grita: “Olha o governador que vai ser prefeito. Geraldo Alckmin!”. Quem sacode a monotonia é o deputado federal Antônio Carlos Pannunzio, vindo de Brasília e Sorocaba para ajudar na campanha. Quatro mocinhas da comitiva começam a entoar “Geraldo, Geraldo”. E um outro acompanhante grita: “45″. A visita acaba com um funcionário da GSA informando o ex-governador de que o único político que até agora se interessou pela sorte dos vendedores do shopping é Agnaldo Timóteo, vereador pelo PR. O cantor apóia Gilberto Kassab.

Mapas organizados pelos cientistas políticos Fernando Limongi e Lara Mesquita, da Universidade de São Paulo (USP) e do Cebrap, mostram a geografia do voto e a evolução do PT no município de São Paulo. Se Maluf está presente em quase todas as disputas travadas em São Paulo nos últimos 20 anos – até daquela, em 1996, de que não participou mas mandou votar em Celso Pitta como se este fosse seu bastante procurador – o Partido dos Trabalhadores é o que sempre concorreu à prefeitura nesse período e, desde que há segundo turno, é o único jamais ausente no “play off” eleitoral.

O início da atual campanha de rua e da propaganda pela TV surpreendeu 80% dos eleitores já definidos em sua simpatia. A campanha se faz com o objetivo de não permitir o êxodo dos eleitores já conquistados, fiéis como se pertencessem a uma torcida de clube de futebol, e de conquistar os cerca de 11% indefinidos que, ao afinal se definirem, ditarão o vencedor. Se os indecisos forem 10%, 5,1% deles farão a diferença. E 10% são exatos 819 mil eleitores.

“Não é exagero dizer que em eleição polarizada a disputa durante a campanha é em torno de 10% dos votos. O problema é que a linha que divide o PT do PSDB concentra muita gente e, portanto, um leve deslocamento pode trazer mais do que 10% dos eleitores”, diz o cientista político Fernando Limongi.

Estas eleições têm uma característica singular: os partidos concorrem com seus principais nomes. Marta, Alckmin, Gilberto Kassab, Maluf, os candidatos mais competitivos, são os que realmente reúnem a maioria de votos em suas correntes. Não foi assim, por exemplo, na eleição presidencial de 2006, quando Alckmin foi o escolhido do PSDB naquele famoso jantar do restaurante Massimo, apesar de Serra ser o favorito nas pesquisas. Agora, não. Alckmin e Marta são os melhores nomes que PSDB e PT têm no momento em São Paulo. E o prefeito Kassab, desconhecido até suceder Serra há dois anos, é o que mais bem representa a sua corrente política, o DEM, embora ele não enfatize, e o eleitor não perceba, que sua origem é o PFL.

Mas Kassab é a novidade deste pleito. Sua presença confunde os analistas e permite que a realidade resista à teoria. E esta, traduzida, indica que a dicotomia PT/PSDB é um fatalismo. Marta, apontam as pesquisas, avança da periferia – Aldo Rebelo, o vice de Marta e deputado do PCdoB, diria que isso lembra a tática de Mao Tsé-Tung – e derrota o Centro (e o Oeste) em primeiro turno. Mas, no segundo, haveria outro determinismo histórico, PSDB e DEM se uniriam como estiveram unidos nos últimos pleitos e comemorariam a vitória.

No momento, Marta e Alckmin estão empatados nas pesquisas de segundo turno. Se Alckmin, porém, superar seu “déficit de entusiasmo” ou Kassab ultrapassá-lo (hipótese mais remota), impulsionado pelo maior tempo na TV e pelo exercício do próprio cargo de prefeito, a derrota do PT pode se configurar.

As pesquisas, aliás, já sugerem essa convergência: eleitores de Alckmin e Kassab se inclinam para o candidato antipetista que as urnas indicarem para o segundo turno, independentemente da briga na cúpula entre Alckmin e Kassab, Aécio Neves e José Serra.

Segundo o Datafolha, na região Sul, 37% dos eleitores votariam em Alckmin contra Marta no segundo turno, e 35% em Kassab (Marta, 54% e 56% respectivamente).

Na Norte, 51% em Alckmin e 47% em Kassab (Marta, 40% e 44%). Na Leste, Alckmin, 46% e Kassab, 39% (Marta, 47% e 51%).

Na Oeste, Alckmin, 64% e Kassab, 54% (Marta, 32% e 35%). Centro, Alckmin 48%, Kassab, 65% e Marta, 42% e 32%, se enfrentar Alckmin ou Kassab.

18/08/2008 - 08:42h “Internet terá mais impacto na formação de opinião”

Leia a integra da entrevista do publicitário Washington Olivetto na Folha de São Paulo

(…)

FOLHA – Nestas eleições no Brasil, a internet terá algum eco ou estamos muito distantes do que está havendo na disputa norte-americana?
OLIVETTO – No caso do Obama, o público jovem está sendo atingido por novas mídias. Isso, na realidade americana é maior, mas aqui está acontecendo. As pessoas se encantam com falibilidade, alguém mais coloquial, menos perfeito. Possivelmente, há a percepção de “isso parece mais verdade”. Essa é a grande mudança na comunicação. A relação, que antes era monólogo, agora é diálogo. Quem antes era receptor agora é discutidor e até produtor de mensagem. No Brasil, isso terá algum eco, apesar de que sempre achei nossos políticos muito antigos, defasados. Especialmente em uma eleição municipal, não sei se os candidatos são tão aparelhados a ponto de se modernizar no discurso. Mas algumas manifestações deverão acontecer, apesar de que a internet, nesta eleição, ainda terá mais impacto na formação de opinião do que no voto.

FOLHA – Apesar disso, os candidatos principais estão tentando investir nessa área. Por quê?
OLIVETTO - Se você não investir nisso, demonstra uma anticontemporaneidade, que contamina todo o resto da sua proposta. Como você será um dirigente no mundo moderno se não está atrelado ao mundo moderno? É uma questão de atitude, mais do que o resultado palpável que possa ter com isso em votos.

FOLHA – O que o sr. achou da decisão do TSE de buscar um controle do conteúdo eleitoral na internet?
OLIVETTO - Eles podem até se propor a fazer isso, mas conseguir é praticamente inviável.

(…)

Leia a integra da entrevista na Folha de São Paulo 

17/08/2008 - 07:21h Agora o jogo fica mais claro para o eleitor

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Fátima Pacheco Jordão* – O Estado de São Paulo

 

 

Embora só comece oficialmente depois de amanhã, o horário eleitoral no rádio e na televisão já teve um ensaio em agosto. A mídia, tanto impressa como eletrônica, fez uma opção diferenciada de cobertura, tratou de forma mais focada os problemas de eleitores nas suas regiões, elaborou diagnósticos e estimulou os candidatos a oferecer as soluções que propõem.

Em São Paulo esse processo foi ainda mais sofisticado, organizações civis até encaminharam aos candidatos perguntas sobre metas a serem alcançadas em cada distrito da cidade. Ou seja, há uma percepção geral de que o eleitor busca respostas mais precisas dos candidatos. E é nesse tom que o horário oficial eleitoral que começa vai ser formatado.

A sintonia dos candidatos com esta pauta pôde ser acompanhada no noticiário de maior audiência na cidade – o SPTV2, da TV Globo. Na última semana, estimulados pela emissora, os candidatos discutiram saúde, coleta de lixo e segurança nos bairros.

Este ensaio prévio já rendeu resultados. Marta Suplicy, a primeira a apresentar programa completo de governo, virou o jogo antes da entrada do novo tempo da campanha. A pesquisa do Ibope, publicada ontem, mostra que ela ganhou pontos em quase todos os segmentos pesquisados e se coloca na perspectiva de poder ganhar a eleição no primeiro turno. O que seria inédito para essa complexa cidade, com seus graves problemas que todos sabem.

Os números mostram, efetivamente, uma forte aceleração das decisões na cabeça dos eleitores: os que não declinam nomes espontaneamente eram, em junho e julho, 40%. Caíram agora, nesta pesquisa Ibope, para 33%. Ou seja, cresce a parcela de eleitores com declaração de voto mais convicta, porque espontânea.

Quase todos os que consolidaram sua posição foram para Marta, que cresceu de 22% para 29%. Seus concorrentes mais diretos não mudaram. Alckmin fica no patamar anterior de 14% e Kassab no de 6%.

Ou seja, apenas Marta Suplicy aproveitou as novas características da cobertura da mídia e consolidou, entre indecisos, boa parcela de votos. Ela respondeu mais convincentemente às questões sensíveis aos eleitores.

O mesmo ocorreu nas taxas de voto estimulado. Entre julho e agosto a dupla situacionista Kassab e Alckmin tinha 42% (média das pesquisas publicadas) e perdem agora 8 pontos (34%). Marta, com 41% agora, aumenta a distância de Alckmin para 15 pontos, claramente assumindo a liderança. Mais ainda, pela primeira vez na série publicada de pesquisas, ela tem taxas superiores a Alckmin nas projeções de segundo turno (47% a 42% respectivamente).

Os segmentos que mais mudaram de posição corroboram a hipótese de que a petista teve um desempenho, na mídia de massa, mais focado nos problemas da cidade e que fez uso mais produtivo do seu tempo na mídia. Seus concorrentes ainda perderam espaço para discutir quem tem o apoio de quem e vazaram para o eleitor tensões internas de seus partidos, gerando obviamente insegurança no eleitorado.

Observando o comportamento de diferentes segmentos através do voto espontâneo, a candidata do PT avança 5 pontos no total e soma 29% do eleitorado, cresce 13 pontos entre os menos escolarizados, segmento que já liderava – chega agora a 38%; cresce 8 pontos entre mulheres (antes liderado por Alckmin) e acumula 30% e ainda cresce 8 pontos (chega a 33%) entre jovens eleitores, até então majoritariamente indefinidos.

Quanto ao voto estimulado, em que o entrevistado lê um cartão com a lista de candidatos, a petista ganha 7 pontos, tirando-os de Alckmin e Kassab, e avança mais nos segmentos já citados. Estes saltos são coerentes com a ampliação da campanha na mídia de massa, a incorporação ao debate dos segmentos de mais baixa renda ou escolaridade e a falta de foco no eleitor dos seus principais oponentes.

Marta consegue uma superação notável, entre eleitoras, segmento que Alckmin ainda sustentava. Esta rodada da pesquisa Ibope mostra um giro importante entre as mulheres, passa de um empate anterior (Alckmin 35%, Marta 32%) para uma liderança considerável (Marta 43%, Alckmin 28%).

Os segmentos onde Marta mais cresceu são os mais estratégicos porque tradicionalmente mantêm taxas mais altas de indefinição até as vésperas da eleição e só consolidam sua escolha com o horário eleitoral no rádio e na TV.

Neste ano não será diferente, pesquisas qualitativas em curso têm captado esta tendência. Ninguém brinca em serviço nesta fase da campanha.

Marta e Kassab têm mais tempo de rádio e de televisão e ambos, administradores testados na cidade, têm mais o que defender, propor e contrapor. A comparação de suas administrações será o grande referencial na cabeça do eleitor.

Alckmin, com menos tempo, vai precisar ampliar para argumentos de ação e de propostas o pilar que mais o sustenta até o momento: uma boa imagem pessoal – o menos rejeitado dentre os candidatos.

O jogo não está todo na mesa, mas vai agora depender da tela.

* Socióloga

12/08/2008 - 10:37h Tio Patinhas para presidente!

http://marimontenegro.files.wordpress.com/2007/09/tio-patinhas.jpgA questão “boba” de Merval Pereira, comentarista do jornal Globo, vale seu peso em ouro. Após a Revolução francesa prevaleceu durante alguns anos o voto censitário: só tinha direito a votar e a serem votados os cidadãos detentores de propriedade. Finalmente foi abolido e substituído pelo voto universal, porém do qual as mulheres eram excluídas, corrigido só em 1947.

A filosofia de Merval é que se o candidato não conseguiu acumular um certo patrimônio é que é… ruim!

Trata-se de uma variante de “como pode ser presidente, se não tem diploma?”. Só que após Lula, o metalúrgico sem diploma e sem patrimônio, estar dando aula de gestão econômica, a “filosofia” mervalística soa como burrada monumental.

Talvez Merval deveria sugerir a AMB uma nova lista suja, a dos candidatos pobres. Só rico poderia ser candidato o que pressupõe (segundo a filosofia Merval) que a acumulação de dinheiro ou patrimônio é prova de capacidade a gerir as finanças públicas. Dantas que o diga!

Aqui vai a pérola de Merval:

“Já que estamos falando de eleições para prefeitos, chamou minha atenção a declaração de patrimônio de Alessandro Molon, o candidato petista: ínfimos R$11.161. Por pouco não repete Garotinho, que declarou patrimônio zero. Chegar a essa altura da vida com um patrimônio desses, vindo de uma família de classe média, em vez de mostrar a “honestidade”, só depõe contra a capacidade de Molon de gerir as próprias finanças e, em conseqüência, as finanças públicas.

O que pode ser uma questão boba, talvez reflita a visão do brasileiro — de que ser pobre é ser honesto, e ser rico é negativo. Diferentemente, a cultura anglo-saxônica faz com que aqui, nos Estados Unidos, poder mostrar um bom patrimônio signifique que o político foi exitoso em seus negócios particulares, o que é uma boa indicação, não uma falha”. Merval Pereira – O Globo

24/02/2008 - 13:47h Direito de voto feminino completa 76 anos no Brasil

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Alzira Soriano foi eleita prefeita de Lajes (RN) em 1928 e Carlota Pereira de Queiroz foi eleita deputada federal em 1933

da Folha Online

Faz só 76 anos que a mulher brasileira ganhou o direito de votar nas eleições nacionais. Esse direito foi obtido por meio do Código Eleitoral Provisório, de 24 de fevereiro de 1932. Mesmo assim, a conquista não foi completa. O código permitia apenas que mulheres casadas (com autorização do marido), viúvas e solteiras com renda própria pudessem votar.

As restrições ao pleno exercício do voto feminino só foram eliminadas no Código Eleitoral de 1934. No entanto, o código não tornava obrigatório o voto feminino. Apenas o masculino. O voto feminino,sem restrições, só passou a ser obrigatório em 1946.

O direito ao voto feminino começou pelo Rio Grande do Norte. Em 1927, o Estado se tornou o primeiro do país a permitir que as mulheres votassem nas eleições.

Naquele mesmo ano, a professora Celina Guimarães –de Mossoró (RN) se tornou a primeira brasileira a fazer o alistamento eleitoral. A conquista regional desse direito beneficiou a luta feminina da expansão do “voto de saias” para todo o país.

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