05/03/2008 - 15:46h O musical que mudou a Broadway

Versão nacional conserva o leve tom operístico e a coreografia que define o caráter dos personagens

Ubiratan Brasil - O Estado de São Paulo

Versão moderna de Romeu e Julieta, metáfora sobre a ameaça que os imigrantes significam a um país rico, a eterna briga pela conquista do território - West Side Story ainda provoca leituras diversas, mas em um detalhe todos são unânimes: trata-se do musical que revolucionou a Broadway. ‘Quando foi montado, em 1957, surpreendeu não só pelos temas mas por apresentar uma ação que passava para a dança de forma natural, como se a coreografia fosse extensão dos movimentos dos atores’, comenta Jorge Takla, que comanda a primeira montagem brasileira de West Side Story, que estréia sexta para convidados, no Teatro Alfa, e sábado para o público.

Diretor, produtor, iluminador e cenógrafo do espetáculo, Takla preferiu manter o título original, rejeitando a tradução brasileira que acompanha a versão cinematográfica, Amor, Sublime Amor, ganhador de nada menos do que dez Oscars em 1961. ‘Preferi realizar um trabalho sem concessão, ou seja, com 42 atores e uma orquestra com 23 músicos, como prevê o original’, conta ele, que calcula um investimento total de R$ 5 milhões para levantar a montagem, além de R$ 1,5 milhão mensal para manutenção de um total de 100 apresentações.

Tamanho cuidado não é exagero - a criação original de West Side Story uniu uma equipe ainda imbatível na história da Broadway. Jerome Robbins, que se tornou o modelo máximo do coreógrafo-diretor, teve o controle total da produção, desde a concepção até a montagem final; Leonard Bernstein, com quem Robbins havia iniciado uma brilhante parceria anos antes, compôs as músicas; Stephen Sondheim, na época um jovem de 20 anos que contava apenas com o apoio do grande Oscar Hammerstein, escreveu as letras das canções; e Arthur Laurents, então um dramaturgo promissor, cuidou do libreto.

A história é ambientada no subúrbio de Nova York, onde duas gangues rivais, os Jets (os nascidos americanos) e os Sharks (imigrantes porto-riquenhos), lutam pelo domínio do bairro. Em meio a tanta incompreensão, Tony, um dos fundadores dos Jets, se apaixona por Maria, a irmã de Bernardo, comandante dos Sharks. O amor impossível, que faz lembrar Romeu e Julieta (inspiração inicial da história), é fadado ao fracasso - uma paixão irrealizável graças ao racismo e à xenofobia americana. ‘Trata-se de obra musicalmente complexa, em que atores devem cantar e dançar de forma natural, sem parecer uma demonstração de técnica’, comenta Takla.

De fato, escrito como se fosse uma ópera, o musical exige cantores com vocação lírica para os papéis principais. Mais: em uma das mais célebres canções, Maria, o ator que interpreta Tony necessita alcançar uma nota difícil, o si bemol. ‘Para conseguir isso, tive de retrabalhar minha respiração’, conta Fred Silveira, que vive Tom com firmeza e emoção e participa do oitavo musical de sua carreira. ‘Além de outra exigência, a coreográfica, é preciso preparar a emoção para o final.’

É justamente o momento em que Maria perde a inocência à custa da vida do amado. ‘Ela sofre uma mudança radical em sua rotina, tornando-se mulher graças ao ódio que separa as duas gangues’, comenta Bianca Tadini, soprano lírica que, como Maria, também atinge notas difíceis (como um dó, no final da música Quinteto) e confere dignidade à menina obrigada a amadurecer com a perda.

Também cantora lírica, Sara Sarres interpreta um papel (Anita, porto-riquenha apaixonada por Bernardo) que exigiu uma mudança em sua carreira. ‘Mudei vocalmente minha interpretação, buscando posições mais graves de minha voz.’ Com isso, ela deixou de viver as eternas mocinhas e se tornar, com presença marcante, uma mulher madura, que também sofre uma perda.

Em West Side Story, os números musicais ajudam a narrar a trama e definem o caráter dos personagens. Daí a comprovada importância dos papéis considerados secundários. ‘Cada um tem uma trajetória específica e até uma coreografia própria, o que marca bem sua posição’, comenta Luciano Andrey, desenvolto como Riff, principal amigo de Tony. ‘E, para isso, temos de usar a técnica do balé clássico adaptado ao musical’, completa Adalberto Halvez, dono de uma enorme vitalidade ao viver Bernardo.

Foi esse o grande desafio de Tânia Nardini, responsável pela adaptação da coreografia original, e também de Cláudio Botelho, que traduziu as letras sem perder o frescor - seu maior trunfo foi a versão de Tonight: como a canção exigia uma palavra de duas sílabas para substituir ‘tonight’, ele encontrou em ‘você’ a chave para manter o ritmo certo e ainda segurou a linha melódica da letra. Um esforço de equipe para garantir o estilo clássico do musical, cujo final, ao contrário da peça de Shakespeare, é mais amargo e mais condizente com o mundo moderno.

Serviço
West Side Story. 140 min. (com 15 min. de intervalo). 12 anos. Teatro Alfa - Sala A (1.210 lug.). Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, telefone 5693-4000. 5.ª e 6.ª, às 21 h; sáb., às 17 h e às 21 h; dom., às 18 h. R$ 40 a R$ 130 (5.ª);R$ 60 a R$ 140 (6.ª e dom.);
R$ 60 a R$150 (sáb.). Ingressos pelos telefones 5693-4000 e 0300 789-3377 (serviço exclusivo do Teatro Alfa, com entrega no próprio teatro no dia do espetáculo). Ingresso Rápido, 4003-1212, www.ingressorapido.com.br (com taxa de conveniência). Até 27/7

05/03/2008 - 15:32h West Side Story, no DVD gravado por Leonard Bernstein

Partitura para não seguir regras, como seu compositor

DVD com gravação feita nos anos 1980 por Leonard Bernstein oferece olhar sobre o processo criativo do maestro americano

João Luiz Sampaio - O Estado de São Paulo

Bernstein / Carreras / Te Kanawa - Bernstein Conducts West Side Story / Te Kanawa, Carreras CD O compositor e maestro Leonard Bernstein (1918-1990) fez uma gravação de West Side Story - e apenas décadas após escrever o musical, em meados dos anos 80. Reuniu um elenco estelar - a soprano Kiri Te Kanawa e o tenor José Carreras, queridinhos do cenário operístico da época, a meio-soprano Tatiana Trotyanos, grande nome da ópera americana, e um jovem revelação, o barítono Kurt Ollman. O registro histórico tem face dupla: de um lado, o CD; de outro, o making-of das gravações. Ambos fazem parte de uma edição especial lançada no final do ano passado pelo selo alemão Deutsche Grammophon para marcar os 50 anos da estréia do musical (há também edições individuais dos dois produtos, todas elas importadas).

Não há muito a dizer sobre as vozes, além de ressaltar o modo especial como se combinam na recriação dessa música - Bernstein conta que, quando escrevia o musical, ouviu diversas vezes de Jerome Robbins e Stephen Sondheim que não escrevesse uma ópera; seu prazer secreto, revela, foi criar linhas de canto que se prestassem também à impostação lírica para, um dia, gravar o musical com cantores de ópera. O mais interessante, porém, é o DVD com o making-of da gravação, com curiosidades e lances para deixar qualquer melômano feliz: Bernstein se desentende com Carreras que, por sua vez, se aborrece e deixa o estúdio xingando algo em espanhol; reclama dos produtores, demonstra seu nervosismo quando um dos microfones falha e ele é obrigado a refazer um dos takes das Danças Sinfônicas; elogia Kiri, irritando as colegas; e por aí vai.

Dos momentos curiosos o que sobra, porém, é a própria personalidade de Bernstein. O gênio difícil sempre foi componente importante da imagem que o maestro e compositor vendeu ao mundo musical. Mais do que isso. Os auto-elogios, as auto-referências, as mudanças de humor - e a percepção de que todos esses elementos sugeriam uma mística em torno de si mesmo - mostram uma personalidade forte, e hábil, que escorregou para a música e permitiu ao compositor ser uma voz dissonante entre as escolas e tendências que pautaram a produção musical do século 20. Se Bernstein seguiu alguma escola, foi nela reitor, professor e aluno rebelde. E, nesse contexto, West Side Story, na apropriação que faz da cultura americana, na mistura de gêneros e na qualidade da escrita, seria a nota dez que garantiria ao artista formar-se como o grande nome da música americana do período.

05/03/2008 - 15:12h Canções de uma América que perde a inocência na rua

Musical de Bernstein e Sondheim é um registro documental do nascimento das gangues racistas nas cidades dos EUA

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de São Paulo

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O musical West Side Story nasceu há meio século como uma história de dois amantes de crenças antagônicas, um católico e outro judeu, ambos moradores no lado leste de Manhattan. O projeto logo foi abandonado. Seria esquemático demais situar o musical na parte nobre da ilha. Nem o coreógrafo Jerome Robbins, que teve a idéia de adaptar Romeu e Julieta para a linguagem do musical americano, parecia convencido. Finalmente, ao ler uma reportagem no jornal Los Angeles Times sobre gangues rivais formadas por mexicanos e americanos, Arthur Laurents, autor da peça, logo imaginou que o conflito religioso da história original poderia ser transformado numa briga étnica. Não no elegante lado leste, mas no lado oeste de Manhattan, o mais miserável.

Laurents conversou, então, com o compositor Leonard Bernstein, parceiro de Robbins no musical On the Town (1944). Coincidentemente, o maestro, um gay nada discreto habituado a rondas noturnas em bairros pobres de Manhattan, havia descoberto às margens do Rio Hudson, lá pela Rua 125, alguns garotos porto-riquenhos fazendo uma algazarra dos diabos: pulavam e brigavam entre os arcos de um prédio como se estivessem numa coreografia de Robbins. Assim nascia um dos números mais fascinantes (a seqüência do Rumble) de West Side Story, herdeiro dos musicais politizados de Brecht e Weill - sem o didatismo da dupla alemã. Estava decidido: seria um musical sobre gangues urbanas que tomam o lugar das famílias feudais de Shakespeare e lutam por afirmação étnica e pela defesa de seu território. Isso nos anos 1950, muito antes do hip-hop e dos gangsta rappers.

No lugar dos Capuletos e Montecchios, os Jets, a gangue polimorfa de caucasianos, luta até a morte contra os Sharks, outra gangue formada por imigrantes porto-riquenhos. O cenário: a América de jovens deserdados, dispostos a tudo para pertencer a algum grupo social. Em West Side Story, o sonho americano de ascensão vira um pesadelo quando um dos garotos da primeira gangue, os Jets - ou seja, os ‘jatos’, signos da América do futuro -, apaixonado pela irmã do líder porto-riquenho, mata por acidente um dos Sharks - os ‘tubarões’, bichos que não evoluem há mais de 2 milhões de anos.

Os sociólogos americanos cansaram de explicar a origem desse conflito: declínio da oferta de emprego aos imigrantes (especialmente os latinos) numa época de automação e medidas cautelares da Suprema Corte para manter negros, chicanos e nativos fora do páreo. Aprovando leis ambíguas nos anos 1950, que garantem igualdade aos cidadãos (desde que separados por raças), essa corte é ridicularizada na figura do policial Krupke, que ouve, dos garotos das duas gangues de West Side Story, mais palavrões do que suportam seus ouvidos. Tanto que Sondheim (também autor de Sweeney Todd, base do filme homônimo em cartaz) foi obrigado a mudar as letras da canção Gee, Officer Krupke, na adaptação para o cinema: nela, um garoto diz que seu pai é um bastardo, sua mãe uma ‘fdp’ e sua irmã uma biscate. Conclusão: a canção foi banida da programação da BBC por mencionar abuso sexual e uso de drogas. Mais uma vez: isso em 1957.

O pior de tudo é que nem Bernstein nem Sondheim exageravam. Quando Rita Moreno interpretou, no cinema, a cena em que Anita é acossada e quase currada pelos Jets, a atriz desabou a chorar ao lembrar que foi vítima de abuso sexual quando criança. Ela não perdoa seu algozes. Aconselha Maria, apaixonada pelo americano Tony, a procurar um bom rapaz porto-riquenho e se livrar daqueles ‘monstruosos’ ianques que a acuaram na rua (na canção A Boy Like That). Perpetuam-se os estereótipos cultivados por ambos os lados. Fica claro que eles são transmitidos pelos pais das vítimas. Os Jets não só discriminam os Sharks porto-riquenhos, acusando-os de roubar seus empregos, como enunciam um discurso racista sobre a inferioridade latina, imitando o sotaque do antípoda. A própria Anita se encarrega de traçar um auto-retrato depreciativo dos porto-riquenhos, justificando que prefere a discriminação à miséria (na canção América). Algo mudou?

28/12/2007 - 13:35h West Side Story: como chegar aos 50 sem rugas

Marie-Noëlle Robert/Reprodução

West side story, antigo musical da Broadway em cartaz na França

Terra Magazine

Deolinda Vilhena

Para a maioria, quando se fala em West side story surge logo a imagem do filme de Robert Wise, estrelado por Richard Beymer, Natalie Wood, George Chakiris e Rita Moreno, produção que ganhou dez Oscars, inclusive os de melhor filme e melhor diretor, na maior consagração de um musical até então. Sucesso mundial quando de seu lançamento em 1961 e hoje, 46 anos depois, um filme tido como “cult”. No Brasil West side story recebeu o título de Amor, sublime amor.
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04/09/2007 - 20:41h West Side Story

West Side Story - Prologue

West Side Story - America

West Side Story-Somewhere