COMERCIAL 30”
QUEM É O KASSAB?
“- Você sabe mesmo quem é o Kassab?
Sabe de onde ele veio?
Qual a história do seu partido?
De quem foi secretário e braço direito?
De quem esteve sempre ao lado, desde que começou na política?
Se já teve problemas com a justiça?
Se melhorou de vida depois da política?
É casado? Tem filhos?
Já que ele não informa nada, não é mais prudente se informar melhor sobre ele?
Pra decidir certo,
é preciso conhecer bem.”
Este comercial provocou a maior campanha da mídia brasileira em favor do respeito a vida privada dos políticos e a maior campanha em favor da tolerância e contra o preconceito.
Nunca antes na história do Brasil a mídia reagiu com tanta ênfase para evitar que um figura pública, no caso Kassab, tivesse sua vida pessoal e sua opção sexual, respeitada.
A mídia fez bem. Mas, porque ela só faz bem quando se trata de políticos que ela defende?
Vocês imaginaram se essa mesma reação tivesse se manifestado quando os ataques violentos e diretos a vida privada, a família, aos filhos e aos irmãos, assim como contra ele mesmo, foram lançados nessa mesma mídia, contra Lula? Como o ar da política estaria mais puro.
Vocês imaginam qual seria a “rejeição” da Marta se a mídia, com o mesmo vigor e a mesma energia, tivesse defendido o respeito a nossa vida privada?
Mas, no nosso caso, foi a mídia que durante 8 anos invadiu permanentemente nossa vida privada e nossas opções pessoais.
Será que a mídia está arrependida e procura corrigir a injustiça feita com a Marta, evitando uma injustiça com Kassab?
Não. Toda a experiência do comportamento da mídia nos últimos anos mostra que as únicas vidas privadas que ela sempre “respeitou”, que sempre protegeu e que nunca explorou são a vida pessoal e privada dos representantes da direita.
A vida pessoal de Lula foi massacrada pela mídia, a de FHC não. A da Marta foi jogada as feras do preconceito, do machismo e da xenofobia, a dos “coronéis” do nordeste não. Ilustres personagens da tucanagem tem suas vidas pessoais resguardadas, enquanto outros tem as suas permanentemente expostas para explorar o ódio.
Na minha opinião o motivo pela qual a mídia decidiu falar da opção sexual, em relação ao comercial, foi para evitar que a trajetória de Kassab no que ela importa ao povo de São Paulo, fique oculta até o segundo turno da eleição.
Eles querem evitar que o povo de São Paulo se pergunte: quem é Kassab? o que ele fez por São Paulo? quais são suas idéias, seu partido, sua história?
O barulho feito sobre a vida pessoal visa a evitar que este questionamento prossiga. Por isso eles ficam repetindo uma única pergunta: no que, que ele seja casado ou tenha filhos muda o político? Para responder: “Olha a baixaria”.
E todas as outras perguntas? interferem? o povo de São Paulo deveria prestar atenção? Ou só deveria se ater ao que a propaganda diz que o homem fez? Quem ele é, não conta?
O fato da Marta ser uma pessoa transparente, não importa? É uma qualidade, quando comparada a dissimulação, ou é um defeito?
Ou essa transparência só serve para poder, sem escrúpulos, invadir em permanência sua vida privada, atacar sua imagem e a da sua família?
Eu teria preferido o comercial assim, para evitar a manipulação que a mídia tem feito.
“- Você sabe mesmo quem é o Kassab?
Sabe de onde ele veio?
Qual a história do seu partido?
De quem foi secretário e braço direito?
De quem esteve sempre ao lado, desde que começou na política?
Se já teve problemas com a justiça?
Se melhorou de vida depois da política?
Já que ele não informa nada, não é mais prudente se informar melhor sobre ele?”
Eu sempre me insurgi contra a campanha que os jornais Folha e Estadão fizeram e fazem da vida familiar, pessoal e privada de Marta. Por isso também sou contra da mídia aproveitar a pergunta sobre se Kassab é casado, tem filhos, para propagar insinuações sobre a vida privada de Kassab. Como sempre, para a mídia, o “gancho” que ela utiliza como escudo para expor a vida privada, é o erro ou a ma fé de outros. Mas a campanha é ela que faz, com a hipocrisia que a caracteriza e sua identificação política notória.
Luis Favre
Leia a seguir os argumentos que o jornal O Globo, em editorial, apresentou para tratar destas questões de vida pública e vida privada, em 1989, reproduzido pelo Blog de Azenha
O DIREITO DE SABER
O povo brasileiro não está acostumado a ver desnudar-se a seus olhos a vida particular dos homens públicos.
O povo brasileiro também não está acostumado à prática da Democracia.
A prática da Democracia recomenda que o povo saiba tudo o que for possível saber sobre seus homens públicos, para poder julgar melhor na hora de elegê-los.
Nos Estados Unidos, por exemplo, com freqüência homens públicos vêem truncada a carreira pela revelação de fatos desabonadores do seu comportamento privado. Não raro, a simples divulgação de tais fatos os dissuade de continuarem a pleitear a preferência do eleitor. Um nebuloso acidente de carro em que morreu uma secretária que o acompanhava barrou, provavelmente para sempre, a brilhante caminhada do senador Ted Kennedy para a Casa Branca – para lembrar apenas o mais escandaloso desses tropeços. Coisa parecida aconteceu com o senador Gary Hart; por divulgar-se uma relação que comprometia o seu casamento, ele nem sequer pôde apresentar-se à Convenção do Partido Democrata, na última eleição americana.
Na presente campanha, ninguém negará que, em todo o seu desenrolar, houve uma obsessiva preocupação dos responsáveis pelo programa do horário eleitoral gratuito da Frente Brasil Popular de esquadrinhar o passado do candidato Fernando Collor de Mello. Não apenas a sua atividade anterior em cargos públicos, mas sua infância e adolescência, suas relações de família, seus casamentos, suas amizades. Presume-se que tenham divulgado tudo de que dispunham a respeito.
O adversário vinha agindo de modo diferente. A estratégia dos propagandistas de Collor não incluía a intromissão no passado de Luís Inácio Lula da Silva nem como líder sindical nem muito menos remontou aos seus tempos de operário-torneiro, tão insistentemente lembrados pelo candidato do PT.
Até que anteontem à noite surgiu nas telas, no horário do PRN, a figura da ex-mulher de Lula, Miriam Cordeiro, acusando o candidato de ter tentado induzi-la a abortar uma criança filha de ambos, para isso oferecendo-lhe dinheiro, e também de alimentar preconceitos contra a raça negra.
A primeira reação do público terá sido de choque, a segunda é a discussão do direito de trazer-se a público o que, quase por toda parte, se classificava imediatamente de ‘baixaria’.
É chocante mesmo, lamentável que o confronto desça a esse nível, mas nem por isso deve-se deixar de perguntar se é verdadeiro. E se for verdadeiro, cabe indagar se o eleitor deve ou não receber um testemunho que concorre para aprofundar o seu conhecimento sobre aquela personalidade que lhe pede o voto para eleger-se Presidente da República, o mais alto posto da Nação.
É de esperar que o debate desta noite não se macule por excessos no confronto democrático, e que se concentre na discussão dos problemas nacionais.
Mas a acusação está no ar. Houve distorção? Ou aconteceu tal como narra a personagem apresentada no vídeo? Não cabe submeter o caso a inquérito. A sensibilidade do eleitor poderá ajudá-lo a discernir onde está a verdade – e se ela deve influenciar-lhe o voto, domingo próximo, quando estiver consultando apenas a sua consciência.
EDITORIAL PUBLICADO EM O GLOBO NO DIA 14 DE DEZEMBRO DE 1989, QUINTA-FEIRA, DATA EM QUE LULA E COLLOR TRAVARAM O DEBATE FINAL ANTES DO SEGUNDO TURNO, EM 17/12/89