28/02/2009 - 17:39h O novo primeiro-regente

O maestro francês Yan Pascal Tortelier assume na segunda o comando da principal orquestra do País e fala pela primeira vez dos planos para a Osesp

 

João Luiz Sampaio – O Estado SP

 


O maestro francês Yan Pascal Tortelier chega este fim de semana a São Paulo para começar seu trabalho de dois anos como regente-titular da Sinfônica do Estado de São Paulo, substituindo John Neschling, demitido no início de janeiro. Definindo uma orquestra como “o mais perfeito instrumento criado pelo homem”, Tortelier, que já esteve à frente da Filarmônica da BBC, em Manchester, se diz animado com a possibilidade do trabalho em São Paulo. E, na entrevista concedida por telefone ao Estado, pede paciência ao público para que ele tenha tempo de conhecer melhor o grupo. Seu primeiro concerto será na quinta-feira, na abertura oficial da temporada, na Sala São Paulo.

Qual a avaliação de seu primeiro contato com a orquestra, em 2008?

Foi uma surpresa maravilhosa viajar a São Paulo e descobrir uma sala maravilhosa. Sinto não tê-la conhecido antes. A questão da acústica é complicada, mas a solução de uma sala criada a partir de um prédio antigo é muito rica e bem-sucedida. Mas o que é uma sala sem uma orquestra? E a Osesp também me surpreendeu, possui alto nível de treinamento e nos demos muito bem. Tive a sensação de que dá para fazer muito em termos de repertório com esses músicos.

Estava prevista a apresentação do oratório Paulus, de Mendelssohn, para a abertura da temporada. Por que trocar a peça pelas mais apresentadas Variações Enigma, de Elgar, e a Sinfonia nº 2, de Rachmaninoff?

Essas são peças com as quais tenho uma relação muito forte. E tudo aconteceu de uma hora para outra, precisei tomar decisões rápidas e procurei um repertório que fosse adequado para todos, com exceção do coro, que ficou de fora mas com quem pretendo trabalhar bastante ainda. Mas entendam que foi tudo muito rápido e tive sorte de poder aceitar o convite, de ter as nove semanas livres em minha agenda, o que aconteceu porque atualmente não tenho nenhum posto fixo à frente de uma orquestra.

A Osesp trabalhou nos últimos 12 anos sob o comando de um mesmo maestro e, desde sua reestruturação, esta é a primeira vez que o grupo passa por uma troca de regentes. Isso torna a transição complicada?

Cada concerto, cada programa, é uma aventura, em qualquer lugar, não apenas em São Paulo. É assim que penso minha vida e minha carreira. Toda vez que chego para trabalhar com uma orquestra vejo a oportunidade como um desafio, uma aventura. Não tenho 100% de certeza de que minha parceria com a Osesp vai funcionar, que seremos bem-sucedidos. Não sei como eles tocam esse repertório que escolhi para o concerto de abertura, por exemplo. Mas sei como os músicos reagiram a mim no ano passado. E estou contando com essa química. No mais, é sempre uma aventura. E é isso que torna minha profissão fascinante.

Como regente-titular, o senhor deve participar da montagem das próximas temporadas da Osesp. Qual imagina ser o repertório ideal para uma orquestra como ela?

Acho necessário relembrar que estou indo para São Paulo em um contexto muito específico, delicado. Vou porque estou disponível, nesta e na próxima temporada. Não sou apenas um regente convidado principal, mas prefiro pensar em mim como um regente principal convidado. Vai caber à direção da orquestra discutir repertórios e programações. Deixem que eu chegue e, após um mês de trabalho, conheça melhor o grupo, com quem trabalhei apenas duas semanas até agora. Estou disposto a conversar e ajudar na montagem do repertório da Osesp. Mas não sou de fazer planos, prefiro que as coisas fluam naturalmente. Vamos ver como nossa relação se dá e construiremos a partir daí.

Existe algum repertório com o qual o senhor se identifica em especial?

A música alemã seria, acredito, o pão com manteiga da minha juventude como músico. O repertório francês flui naturalmente no meu sangue; os russos, bom, são essenciais, assim como a música latina, sempre com espaço para os compositores anglo-saxões. Acho que posso dizer que, se não com tudo, eu me sinto feliz com a maior parte do repertório sinfônico ocidental.

O senhor falou em música latina. Conhece a música brasileira?

Essa é uma pergunta delicada para mim. O grande atributo da música latina, a brasileira incluída, é o ritmo, há um fogo que tem a ver com o ritmo. Fala-se sempre isso dos russos, de Stravinsky, mas não acho que a questão rítmica seja tão essencial para os russos quanto para os latinos. Não regi muita música brasileira, mas espero em São Paulo poder me aventurar por esse repertório, gostaria muito disso. Mas tenham paciência, não seria justo exigir isso de mim logo de cara. De qualquer forma, não acredito que vocês precisem de mim como advogado de sua música. Meu papel em São Paulo é mais amplo.

Para que serve uma orquestra sinfônica em um mundo como o de hoje?

Talvez eu pareça ultrapassado, mas acho que o mundo de hoje fica cada vez mais superficial. A tecnologia traz avanços indiscutíveis, mas transforma o ambiente em que vivemos e, aos poucos, passamos a nos comportar como máquinas. Há aí a necessidade da espiritualidade, não do fanatismo, claro, mas do misticismo. Não sou uma pessoa religiosa, devo dizer. Mas vejo a música como minha religião, em vez do judaísmo, budismo, cristianismo, islamismo, etc. Nunca houve uma guerra provocada pela música. Ela pode fazer por nós tanto quanto qualquer religião. E uma orquestra é o veículo perfeito dessa idéia, deve difundir a música, levando-a ao maior número possível de pessoas.

E agora?

 


A demissão do maestro John Neschling despertou uma série de questões sobre o futuro da Osesp. Se Tortelier assume o posto de regente-titular, quem fica como diretor artístico, encarregado portanto de montar as próximas temporadas? Segundo a Fundação Osesp, a direção artística será feita provisoriamente pelos consultores internacionais contratados para auxiliar a orquestra nesse momento de transição: Timothy Walker, diretor-executivo e artístico da Filarmônica de Londres, e Henry Fogel, ex-presidente da Liga Americana de Orquestras e ex-diretor-executivo da Orquestra Nacional de Washington e da Sinfônica de Chicago. Quanto ao nome do novo diretor, a fundação promete o anúncio para 2010, “a tempo de preparar a temporada de 2011″. Sobre as gravações. Tortelier vai comandar o grupo em uma delas. A Fundação, no entanto, ainda não informou o cronograma completo de gravações e os artistas que estarão envolvidos. Também falta um pronunciamento oficial por parte da orquestra sobre as turnês pelos Estados Unidos e pela Europa, previstas para este e o próximo ano: estão confirmadas? Quem regerá o grupo nas viagens?

28/02/2009 - 17:02h Maestro francês, que assume Osesp até 2011, diz que orquestra precisa de mais visibilidade internacional

ENTREVISTA

YAN PASCAL TORTELIER

“Por que não pensar alto e planejar uma turnê mundial?”

Maestro francês, que assume Osesp até 2011, diz que orquestra precisa de mais visibilidade internacional

Tortelier rege a Osesp, no ano passado; ele afirma que, ao assumir a orquestra, não quer se envolver com “encargos burocráticos”

JOÃO BATISTA NATALI

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O maestro francês Yan Pascal Tortelier, que assume a Osesp (Sinfônica do Estado) como regente principal, disse à Folha que um de seus objetivos nos próximos dois anos será o de dar à orquestra mais visibilidade internacional. “Por que não pensar alto e planejar uma turnê mundial?”, sugere. O substituto de John Neschling, que foi demitido em janeiro, não revela seu salário: “Em geral, ganho menos do que deveria”, avalia. A seguir, trechos da entrevista, feita na última quarta, por telefone, de Manchester (Reino Unido).

***

FOLHA – O sr. já conheceu a Osesp por tê-la regido seis vezes, em dois programas diferentes, em 2008. O que falta para que se torne uma das grandes sinfônicas mundiais?
YAN PASCAL TORTELIER
– No ano passado, trabalhei com a orquestra um repertório francês, do qual me sinto bastante próximo. Mas preciso ainda trabalhar outros repertórios, como Elgar e Rachmaninov, que estarão no primeiro programa desta temporada. E preciso trabalhar peças do repertório brasileiro, o que não me constrange. A Osesp já possui reputação internacional razoável. Creio que ela precisa de mais visibilidade internacional. Essa visibilidade será facilitada pelo fato de a orquestra merecer comentários positivos. Mesmo na revista “Gramophone”, que a situou entre aquelas cujo trabalho merece ser acompanhado.

FOLHA – A Osesp gravou 32 CDs e fez mais de uma turnê pela Europa e pelos EUA. Isso já não é visibilidade?
TORTELIER
– Por enquanto, é difícil para mim especificar um plano de trabalho, já que preciso ainda conversar com a direção da orquestra em SP, a partir da próxima semana. Mas acredito que o simples fato de eu assumir meu posto na Osesp dará a ela um ângulo diferente de exposição. Desde janeiro, recebi cumprimentos inúmeros no meio musical americano e europeu por ter aceito dirigir a orquestra. Eu e ela poderemos, de certo modo, nos dar mutuamente visibilidade. Por que não pensar alto e planejar uma turnê mundial? Quanto às gravações, também tenho meus contatos para permitir aos músicos continuarem a ser mais conhecidos internacionalmente.

FOLHA – O sr. mencionou o repertório brasileiro, que compreensivelmente não lhe é familiar. Como o sr. fará para programá-lo e regê-lo?
TORTELIER
– Eu não estou entrando a bordo da orquestra de modo improvisado. Mas é algo novo, que há poucas semanas ainda me era impensável. As coisas são ainda muito novas para mim. Preciso conversar com a direção da Osesp, discutir os desafios, inclusive quanto ao repertório brasileiro. O que posso dizer humildemente é que estou estudando esse repertório e espero que me seja dado o tempo para tomar decisões com relação a ele.

FOLHA – Além das oito semanas que o sr. ficará em São Paulo nessa próxima temporada, há de sua parte o plano de permanecer por aqui mais tempo para cuidar dos problemas de uma centena de músicos?
TORTELIER
– A Osesp é uma grande orquestra. Quando a regi no ano passado, tinha à disposição 14 primeiros-violinos. Nem todas as grandes orquestras europeias conseguem reunir um naipe tão numeroso. Sobre as minhas atribuições, não serei um simples “regente convidado”. Serei bem mais do que isso. Serei o regente principal, pela experiência que tenho. Mas não me envolverei nos problemas cotidianos. Meu desejo é reger, sem os encargos administrativos e burocráticos.

FOLHA – A Osesp se diferenciou das demais orquestras brasileiras pela ousadia do repertório. O sr. pretende manter essa especificidade?
TORTELIER
– Não fui ainda integralmente informado sobre os padrões das programações das temporadas precedentes. Mas, pessoalmente, apesar de minha formação centrada na música francesa ou na excelência do romantismo alemão, não teria dificuldades em manter essa “ousadia”, com a programação de compositores do século 20, como Witold Lutoslawski, Paul Hindemith ou Zoltán Kodály, que eu gravei exaustivamente com a Filarmônica da BBC. São nomes importantes. Precisamos fazer peças menos conhecidas de Stravinsky e Chostakovich. Não que eu seja um fanático do repertório esotérico. Bem pelo contrário, preciso consumir meu pão com manteiga.

FOLHA – O sr. manterá a atual programação de gravações?
TORTELIER
– Peço que a pergunta seja refeita dentro de duas ou três semanas, quando já tiver discutido o assunto em SP. Claro que gravaremos, em razão da visibilidade que mencionei.

FOLHA – Quando é que o sr. foi convidado para assumir a Osesp?
TORTELIER
– No ano passado, a orquestra me convidou para reger dois programas em 2010. Mas, para minha surpresa, nos primeiros dias de janeiro, meu empresário procurou-me e relatou a intenção da Osesp de me ter como regente principal.

FOLHA – Seu predecessor, o maestro John Neschling, foi criticado por receber um salário mensal de R$ 100 mil. O sr. acredita que essa quantia é exagerada?
TORTELIER
– [gargalhada] É uma pergunta bastante engraçada. É claro que não tenho comentários sobre o salário do maestro, do mesmo modo como não permitiria comentários sobre o meu. O que posso afirmar com tranquilidade é que não sou um músico movido a dinheiro. Em geral, ganho menos do que deveria ganhar por minha experiência em meus já completados 61 anos. E sempre ganhei bem menos que os maestros de orquestras americanas.

FOLHA – Afora música clássica, de que tipo de música gosta?
TORTELIER
– Eu não tenho muito tempo para ouvir música e gosto de ir ao cinema e ao teatro. Mas, quando saio do repertório clássico, eu gosto de jazz. Nem o tão moderno, nem o tão antigo. Algo próximo do swing.

 saiba mais

Mandato de maestro será de dois anos

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Yan Pascal Tortelier assume a direção da Osesp no desfecho da maior crise interna desde sua criação, em 1954. Ele substitui o maestro John Neschling, que passou a dirigir a orquestra em 1997 e deu a ela um padrão de excelência inédito entre as sinfônicas brasileiras.
Neschling estava desde 2007 em rota de colisão com o Conselho da Fundação Osesp, com a Secretaria da Cultura do Estado e com o governador José Serra. Um dos integrantes do conselho comunicou a ele que seu contrato não seria renovado a partir de outubro de 2010.
Em dezembro do ano passado, em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, o maestro qualificou de “irresponsável” a forma como era conduzida sua sucessão. Ao mesmo tempo, o conselho passou a suspeitar que Neschling estimulava o movimento por sua permanência, que cresceu entre frequentadores da Sala São Paulo.
Segundo Fernando Henrique Cardoso, presidente do conselho, a sucessão estava atrapalhada porque o diretor artístico dizia publicamente que ela não daria certo.
Tortelier foi contatado pelo conselho nos primeiros dias de janeiro. No dia 12, FHC encontrou-se em Londres com o maestro que se tornaria regente principal por dois anos, numa espécie de mandato-tampão, até a escolha de um novo diretor artístico, a partir da temporada de 2011. Em 21 de janeiro, um dos integrantes do conselho, o embaixador Rubens Barbosa, foi encarregado de comunicar a Neschling que ele estava demitido. Horas depois, um e-mail de FHC confirmava a demissão.
Antes de Neschling, a Osesp tinha a reputação de uma sinfônica de segunda linha, mesmo sob o comando, por 23 anos, de Eleazar de Carvalho, um dos grandes da regência brasileira, que foi no entanto desprestigiado pelos sucessivos governos estaduais que se recusavam a pagar aos músicos salários compatíveis.
Em 1997, Neschling demitiu todos os músicos, obrigou os que quisessem ser recontratados a se submeter a um novo concurso, no qual os aprovados passaram a receber salário cinco vezes maior. (JBN)