28/10/2008 - 14:00h Derrota ameaça hegemonia de grupo martista em São Paulo
Cristiane Agostine e Raquel Ulhôa, VALOR de São Paulo e Brasília
A derrota de Marta Suplicy na disputa pela Prefeitura de São Paulo em São Paulo levou à divisão os grupos que a apoiaram, o que pode comprometer sua volta ao governo federal e até mesmo sua pré-candidatura ao governo do Estado, em 2010.
O resultado da eleição gerou um rearranjo de forças entre as tendências que controlam os diretórios estadual e municipal do PT, com influência majoritária dos martistas. Grupos não ligados à ex-prefeita apostam na divisão dos apoiadores de Marta para tentar enfraquecê-los. Com a crise interna deflagrada a partir da derrota, os dissidentes articulam um movimento para antecipar a troca da direção partidária, prevista para o fim de 2009. “O grupo da Marta vai se dividir ainda mais depois desta derrota”, comentou um dirigente dissidente do estadual. “Eles já não estão marchando unidos”, comentou. A antecipação da eleição interna, entretanto, é descartada pelas Executivas municipal e estadual do partido.
O grupo de Marta é hegemônico no PT municipal e elegeu 9 dos 11 vereadores. Os martistas também têm forte influência no estadual. As críticas ao comando da campanha de Marta, entretanto, não são poucas nos diretórios de São Paulo e a atuação do coordenador, deputado Carlos Zarattini, gerou divergências até mesmo entre os martistas que o indicaram. “A comunicação com a população de São Paulo foi péssima. Não tivemos problemas só com a classe média, mas também com o eleitorado tradicional do PT”, comentou um dirigente da campanha. “Perdemos em toda a cidade.”
Sem acordo até mesmo entre eles, os aliados da ex-prefeita ainda têm dúvidas sobre o futuro político dela. Dizem que Marta espera um aceno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para voltar ao Planalto, provavelmente no Ministério do Turismo, onde estava antes de disputar a prefeitura. Com poder de pressão diminuído, eles têm dúvidas em relação à vontade de Lula levar novamente Marta ao primeiro escalão do governo.
Petistas de tendências mais distantes de Marta prevêem o enfraquecimento da pré-candidatura da ex-prefeita em 2010. “Ela não está morta politicamente”, contrapõe o vereador Donato, aliado de Marta e dirigente estadual do PT. “É um grande nome para disputar o governo do Estado. Quem tem mais voto é ela e no fim é isso o que pesa”, comentou Donato. “Mas temos de analisar, com profundidade, os problemas do PT. Não conseguimos dialogar com um conjunto amplo da sociedade.”
A preparação do partido para 2010 e a troca da direção partidária no próximo ano estarão na pauta do encontro que a direção do PT de São Paulo fará hoje. A bancada municipal dos vereadores, controlada pelo grupo martista, também se reúne hoje.
No balanço do resultado das eleições no Estado, os petistas analisarão além da derrota em São Paulo, a de Santo André, cidade considerada estratégica no ABC paulista. O PT ganhou em São Bernardo do Campo e é o partido com maior número de prefeituras na região metropolitana do Estado, que concentra mais de 47,8% da população.
Ontem, a Executiva Nacional do PT fez um balanço positivo do desempenho do partido nas eleições municipais, obtendo um crescimento de 35% em relação a 2004 e elegendo 556 prefeitos – segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral -, mas vai trabalhar com “mineirice” para superar arestas com aliados na tentativa de construir uma candidatura conjunta para a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E não vai “varrer para debaixo do tapete” os problemas internos que o partido enfrentou.
Em entrevista concedida depois da reunião, ontem, em Brasília, o presidente do partido, deputado Ricardo Berzoini (SP), negou que a pré-candidatura da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) à Presidência da República tenha saído enfraquecida das eleições municipais, que colocaram em xeque a capacidade de Lula transferir votos. Segundo Berzoini, Dilma saiu fortalecida “do ponto de vista partidário, pela disposição militante” de comparecer, após o horário trabalho, em compromissos políticos de candidatos aliados.
“O objetivo da eleição municipal não é enfraquecer ou fortalecer candidato a presidente da República”, disse Berzoini. Ele afirmou que a ministra também cresceu na opinião pública, à medida que se tornou mais conhecida, mas foi cauteloso ao falar dela como candidata. Segundo ele, 2010 está longe e qualquer previsão sobre nomes é mera especulação”.
Berzoini não assumiu culpas nem fez críticas a campanhas. Sobre a derrota de Marta Suplicy em São Paulo, disse que o diretório estadual fará avaliação das razões e que seria “pretensão” do diretório nacional fazer análise de forma superficial. Lembrou, no entanto, que os votos que Marta recebeu correspondem ao “patamar histórico do PT” e que ela enfrentou partidos fortes em São Paulo, que se juntaram no segundo turno contra ela, inclusive o PMDB.
Berzoini mostrou-se especialmente preocupado em recompor a boa relação do PT com o PMDB, que se enfrentaram em Salvador e Porto Alegre. “Vamos trabalhar onde houve embate entre partidos base aliada com muito diálogo, principalmente entre PT e PMDB. Já conversei com o deputado Michel Temer (SP), presidente do PMDB, para termos diálogo permanente, superar problemas. Não vamos esconder que houve divergências e diferenças, mas vamos tratar politicamente”, afirmou Berzoini. A disposição, segundo ele, é “tratar dos problemas sem ânimo de guerra”.
Em Belo Horizonte, o PT saiu dividido, mas Berzoini também minimizou os problemas. Afirmou que “houve críticas de lado a lado” – tanto dos petistas que apoiaram a aliança com o PSDB do governador Aécio Neves, em torno da candidatura de Márcio Lacerda (PSB), quando daqueles que eram contra. Para esses, a presença de Aécio foi muito forte na campanha, disse Berzoini. Já a ala petista ligada ao prefeito Fernando Pimentel (PT), mentor da aliança com o PSDB ao lado de Aécio, criticou as lideranças do partido que torciam para outras candidaturas. “Devemos trabalhar com maturidade, grandeza”, disse o presidente do PT.
Mesmo analisando que é prematuro falar em nomes para a sucessão de Lula, Berzoini disse que o presidente e o PT trabalham para ter candidato e ser a cabeça-de-chapa em uma coligação com os aliados. Mas ele não descartou a candidatura de outro partido da base. “Seria prepotência”, afirmou. Avaliou, no entanto, que é legítimo o PT querer a vaga, pela liderança do presidente Lula.
A executiva recebeu também a proposta de realização de um ciclo de debates sobre a crise financeira e mesas redondas com economistas de diferentes correntes de pensamento. O PT convidará os demais partidos de sustentação do governo, para que tenham melhor compreensão dos problemas e das medidas adotadas para seu combate.
“A oposição está apresentando as alternativas dela. O PT precisa ter uma visão sobre a crise. É uma caixa preta. Ninguém sabe onde vai”, disse o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, vice-presidente do partido.










